SOBRE AS MORAIS
Admite, por um pequeno instante, a inocência do vir-a-ser.
Que um ser não erra, não mente, nem é bondoso ou malévolo.
Agora turva o mundo com miragens, reinterpreta-o para adaptá-lo
Aos teus limites.
E esquece-te, com toda a força, da incomensurável inexistência
De motivos.
No fundo, tudo é ausência, tudo é instinto ou impulso.
20090104
20080319
20080318
There is a wind that seeks the crevice
under my heart
the way insects file at night
beneath a doorway
Its edges are rough, it slits
the cords. It trips my steady breathing.
When it comes there is no one
I can trust.
It seems, at times, I have designed
too well this vision of you
I cannot survive your eyes
when they are scarred with a need
for some lesser form of love.
I admit to this conceit.
And though you will not accept it
You love it nonetheless
It is just like you. Our desires
will always be kept sharp
by a kind of perversity. A need
to be each forever alone...
Its color is violet, like lips
that have been smashed by nights
or robbed of blood by lack of breath,
The wind I was speaking of does this.
I can feel it now.
Jack Kerouac, Selected Poems
under my heart
the way insects file at night
beneath a doorway
Its edges are rough, it slits
the cords. It trips my steady breathing.
When it comes there is no one
I can trust.
It seems, at times, I have designed
too well this vision of you
I cannot survive your eyes
when they are scarred with a need
for some lesser form of love.
I admit to this conceit.
And though you will not accept it
You love it nonetheless
It is just like you. Our desires
will always be kept sharp
by a kind of perversity. A need
to be each forever alone...
Its color is violet, like lips
that have been smashed by nights
or robbed of blood by lack of breath,
The wind I was speaking of does this.
I can feel it now.
Jack Kerouac, Selected Poems
20080316
20080220
"De um livro o início ao fim, o todo como o visualizamos conceptualmente, de pouco vale à obra de Vian. "Outono em Pequim" é lido para nos deixar navegando. Para nos tornarmos irreconhecíveis aos nossos, o hoje ao amanhã, a genealogia da presença e a lógica dos factos. Vian lê-se porque à partida deveremos ter presente que, as intermináveis tentativas serão de louvar, que a ordem de ideias atingida é possivelmente decomposta, isolada, ironizada. Uma determinada forma de nós não nos cinge em relação associativa, seremos pois, o ridículo do que escondemos, e na leitura de "Outono em Pequim" todos os embaraços se expõem à prova de uma total indiscrição, salvaguarda contra o óbvio. E aí se espraia o intento de Boris Vian, desmantelador ilógico e livre anexo da moral, faz brincar os personagens como se a vida reportada aos factos se iludisse a si mesma, e talvez este intento seja, na verdade, o mais crítico e construtuvista dos valores, onde o óbvio desaparece para libertar da segurança sistemática que o código desses mesmos valores impõe, o Homem certo e capaz de se retroceder analiticamente, sem se tomar por louco. O óbvio é um hábito facilmente adquirido, tal como a sanidade."
20070625
20070621
I believe the moment is at hand when, by a paranoiac and active advance of the mind, it will be possible (simultaneously with automatism and other passive states) to systematize confusion and thus to help to discredit completely the world of reality. In order to cut short all possible misunderstandings, it should perhaps be said: "immediate" reality. Paranoia uses the external world in order to assert its dominating idea and has the disturbing characteristic of making others accept this idea's reality. The reality of the external world is used for illustration and proof, and so comes to serve the reality of one's mind. In the special 'Surrealist Intervention' number of Documents 34, under the title 'Philosophic Provocations', Dali undertakes today to give his thought a didactic turn. All uncertainty as to his real intentions seems to me to be swept away by these definitions:
Paranoia: Delirium of interpretation bearing a systematic structure.
Paranoiac-critical activity: Spontaneous method of "irrational knowledge" based on the critical and systematic objectification of delirious associations and interpretations.
Painting: Handmade colour "photography" of "concrete irrationality" and of the imaginative world in general.
Sculpture: Modelling by hand of "concrete irrationality" and of the imaginative world in general.
André Breton, What is Surrealism 1934
20070613
Uncle vernon, uncle vernon, independent as a hog on ice
Hes a big shot down there at the slaughterhouse
Plays accordion for mr. weiss
Uncle biltmore and uncle william
Made a million during world war two
But theyre tightwads and theyre cheapskates
And theyll never give a dime to you
Auntie mame has gone insane
She lives in the doorway of an old hotel
And the radio is playing opera
All she ever says is go to hell
Uncle violet flew as a pilot
And there aint no pretty girls in france
Now he runs a tiny little bookie joint
They say he never keeps it in his pants
Uncle bill will never leave a will
And the tumor is as big as an egg
He has a mistress, shes puerto rican
And I heard she has a wooden leg
Uncle phil cant live without his pills
He has emphysema and hes almost blind
And we must find out where the money is
Get it now before he loses his mind
Uncle vernon, uncle vernon, independent as a hog on ice
Hes a big shot down there at the slaughterhouse
He plays accordion for mr. weiss
Tom Waits, Cemetery Polka
Hes a big shot down there at the slaughterhouse
Plays accordion for mr. weiss
Uncle biltmore and uncle william
Made a million during world war two
But theyre tightwads and theyre cheapskates
And theyll never give a dime to you
Auntie mame has gone insane
She lives in the doorway of an old hotel
And the radio is playing opera
All she ever says is go to hell
Uncle violet flew as a pilot
And there aint no pretty girls in france
Now he runs a tiny little bookie joint
They say he never keeps it in his pants
Uncle bill will never leave a will
And the tumor is as big as an egg
He has a mistress, shes puerto rican
And I heard she has a wooden leg
Uncle phil cant live without his pills
He has emphysema and hes almost blind
And we must find out where the money is
Get it now before he loses his mind
Uncle vernon, uncle vernon, independent as a hog on ice
Hes a big shot down there at the slaughterhouse
He plays accordion for mr. weiss
Tom Waits, Cemetery Polka
20070609
Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.
Tristan Tzara, Manifesto Dadaísta
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.
Tristan Tzara, Manifesto Dadaísta
20070608
20070603
Admitindo que sentíamos o outro como ele se sente a si próprio o que Schopenhauer designa por compaixão e que mais exactamente deveria ser designado por unidade no sofrimento - deveríamos detestá-lo quando ele próprio, como Pascal, se sente detestável. Se o outro sofre de alucinações, se teme ficar louco, eu próprio deveria alucinar-me, eu próprio deveria ficar louco. Ora, qualquer que seja a força do amor, isso não se verifica: fico comovido, angustiado, pois é terrível ver sofrer quem se ama, mas, ao mesmo tempo, fico seco, estanque.A minha identificação é imperfeita: o outro inquieta-me, agito-me demasiado, na razão igual da profunda reserva em que, de facto, me encontro. Pois, ao mesmo tempo que me identifico sinceramente com a infelicidade do outro, o que leio nessa infelicidade é que ela existe sem mim e que, sendo infeliz por si próprio,o outro me abandona: se ele sofre sem que eu seja a causa, é porque não significo nada para ele: o seu sofrimento anula-me na medida em que existe fora de mim próprio. Numa frase: dói-me o outro.
Roland Barthes, Fragments d'un discours amoureux
20070429
20070428
A apreciação do silêncio é uma das numerosas coisas que um leitor, sem que se espere, pode aprender de sua obra. Você tem escrito sobre a liberdade que o silêncio permite, sobre suas múltiplas causas e significações. Em seu último livro, por exemplo, você diz que não existe apenas um, mas numerosos silêncios. Seria fundamentado pensar que há ai um potente elemento autobiográfico? - "Penso que qualquer criança que tenha sido educada em um meio católico justamente antes ou durante a Segunda Guerra Mundial pôde experimentar que existem numerosas maneiras diferentes de falar e também numerosas formas de silêncio. Certos silêncios podem implicar uma hostilidade virulenta; outros, por outro lado, são indicativos de uma amizade profunda, de uma admiração emocionada, de um amor. Eu lembro muito bem que quando eu encontrei o cineasta Daniel Schmid, vindo me visitar, não sei mais com que propósito, ele e eu descobrimos, ao fim de alguns minutos, que nós não tínhamos verdadeiramente nada a nos dizer. Desta forma, ficamos juntos desde as três horas da tarde até meia noite. Bebemos, fumamos haxixe, jantamos. Eu não creio que tenhamos falado mais do que vinte minutos durante essas dez horas. Este foi o ponto de partida de uma amizade bastante longa. Era, para mim, a primeira vez que uma amizade nascia de uma relação estritamente silenciosa. É possível que um outro elemento desta apreciação do silêncio tenha a ver com a obrigação de falar. Eu passei minha infância em um meio pequeno-burguês da França provincial, e a obrigação de falar, de conversar com os visitantes era, para mim, ao mesmo tempo algo muito estranho e muito entediante. Eu lembro-me de perguntar por que as pessoas sentiam a obrigação de falar. O silêncio pode ser uma forma de relação muito mais interessante." - Há, na cultura dos índios da América do Norte, uma apreciação do silêncio bem maior do que nas sociedades anglofônicas ou, suponho, francofônica. - "Sim. Eu penso que o silêncio é uma das coisas às quais, infelizmente, nossa sociedade renunciou. Não temos uma cultura do silêncio, assim como não temos uma cultura do suicídio. Os japoneses têm. Ensinava-se aos jovens romanos e aos jovens gregos a adoptarem diversos modos de silêncio, em função das pessoas com as quais eles se encontrassem. O silêncio, na época, configurava um modo bem particular de relação com os outros. O silêncio é, penso, algo que merece ser cultivado. Sou favorável que se desenvolva esse êthos do silêncio."
Michel Foucault, Silêncio, sexo e verdade - Uma entrevista com Michel Foucault
20070423
O povo julga bem as coisas, porque está na ignorância natural, que é o verdadeiro lugar do homem. A ciência tem duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura ignorância natural, na qual se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela a que chegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo quanto os homens podem saber, acham que nada sabem e voltam a encontrar-se nessa mesma ignorância da qual tinham partido; mas é uma ignorância sábia que se conhece. Os do meio, que saíram dessa ignorância natural e não puderam chegar à outra, têm umas pinceladas dessa ciência suficiente, e armam-se em entendidos. Esses perturbam o mundo e julgam mal de tudo. O povo e os verdadeiramente sábios compõem a ordem do mundo; estes desprezam-na e são desprezados.
Blaise Pascal, Pensamentos
20070405
Todo o confuso amontoado do social move-se em torno desse referente esponjoso, dessa realidade ao mesmo tempo opaca e translúcida, desse nada: as massas. Bola de cristal das estatísticas, estas são atravessadas por correntes e fluídos à semelhança da matéria e dos elementos naturais. Pelo menos é assim que elas nos são representadas. Elas podem ser magnetizadas, o social rodeia-as como uma eletricidade estática, mas a maior parte do tempo comportam-se precisamente como "massa", o que quer dizer que absorvem toda a electricidade do social e do político, neutralizando-as sem retorno. Não são boas condutoras do político, nem do social, nem mesmo boas condutoras do sentido em geral. Tudo as atravessa, tudo as magnetiza, mas nelas se dilui sem deixar traço. E na realidade o apelo às massas sempre ficou sem resposta. Elas não irradiam, ao contrário, absorvem toda a irradiação das constelações periféricas do Estado, da História, da Cultura, do Sentido. Elas são a inércia, aforça da inércia, do neutro. (...) Nalgum ponto da representação imaginária, as massas flutuam entre a passividade e a espontaneidade selvagem, mas sempre com uma energia potencial, hoje referente mudo, amanhã protagonista da história, quando elas tomarão a palavra deixarão de ser a ,"maioria silenciosa" - ora justamente, as massas nada têm história a escrever, nem passado nem futuro, não têm energias virtuais para libertar, nem desejo a realizar: a sua força é actual , toda ela é o silêncio. Força de absorção e neutralização, desde já superior a todas as que se exercem sobre elas. Força de inércia específica, cuja eficácia é diferente da de todos os esquemas de produção, de irradiação e de expansão sobre os quais funciona o nosso imaginário, incluindo a vontade de destruí-los.
Jean Baudrillard, À sombra das maiorias silenciosas
20070401
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